Para nós, a personalidade não é condição supérflua mas existencial, hálito da vida, cabedal necessário. Nesse contexto, entendo como artistas todos aqueles que sentem a necessidade moral e vital de experimentar em si próprios a vida e o crescimento, conhecer os fundamentos dessas forças e sobre essa base construir a si mesmo segundo as leis que sua própria individualidade, ou seja, não exercer atividade subalterna ou manifestar outra qualquer atitude vital que, por sua essência e efeito, não mantenha a mesma relação clara e coerente que em sólida estrutura guardam entre si abóbada e paredes, teto e pilares.
Mas os artistas sempre sentiram a necessidade dos períodos de folga; para poder consolidar a nova aquisição e amadurecer a ação ainda inconsciente; para poder aproximar-se, com devoção espontânea, novamente da natureza, voltar a ser criança, sentir-se de novo amigo e irmão da terra, da planta, da rocha e da nuvem. Quer alguém se dedique como artista à pintura e à poesia, quer sinta apenas a vontade de aprimorar-se na arte e na poesia para poder experimentar a alegria do gozo da própria obra, haverá sempre, para todos, pausas necessárias e inevitáveis. O pintor que acaba de dar a primeira mão de tinta à sua tela, não se sentindo logo arrebatado pela inspiração e pelo poder criador, começa a experimentar, a duvidar, a pintar sem naturalidade. Por fim, irritado ou desgostoso, desiste do trabalho, sente-se incapaz de realizar uma obra de real valor, maldiz o dia em que se fez pintor, fecha o atelier com certa inveja do varredor de rua, para quem o dia passa em tranquilidade e paz espiritual. O poeta desconcerta-se diante de um plano começado, sente a ausência da grandeza inicialmente visualizada, risca palavras e páginas inteiras para reescrever, queima também as páginas reescritas, vê esvaecer-se, a pálida distância, o que havia imaginado com clareza, descobre de repente em si paixões e sentimentos falsos, mesquinhos, insuspeitados, abandona o trabalho e inveja também o varredor de rua.
Um terço, a metade da vida de muitos artistas decorre assim. Só alguns privilegiados (excepcionalmente bem-dotados) conseguem produzir em fluxo quase contínuo, o que explica a razão das pausas, aparentemente ociosas, da maioria dos artistas, que têm suscitado sempre o desprezo ou a compaixão das pessoas medíocres, insensíveis à arte. Como o filisteu é por índole incapaz de avaliar o infinito trabalho de uma única hora fecunda de criação, também não poderá entender por que o pintor – um excêntrico, como acredita – para de pintar, em vez de tranquilamente continuar a aplicando pinceladas até acabar o quadro. Como poderá saber que o artista frequentemente se sente incapaz de concluir seu trabalho, entregando-se então desconsolado aos pensamentos melancólicos, fechando durante semanas o seu atelier. O próprio artista vê suas esperanças frustradas por essas pausas que não prevê e que o lançam, inesperadamente, em aflições e sofrimentos, até que consiga compreender que deve obedecer às leis inatas que o animam e que seu insucesso decorre, com a mesma probabilidade, de um excessivo impulso criador ou do esgotamento por excesso de trabalho.
Uma força está ativa em sua alma, força que pela sua vontade se manifestaria logo na criação de uma bela obra. Mas esse poder, sentindo-se imaturo, ainda não quer plasmar-se, cuida de guardar o segredo de sua única possível e mais bela criação. Resta, assim, apenas esperar.
Hesse, Hermann, 1877 – 1962; A Arte dos Ociosos.